O Socioculturalista #1

03Abr07

Editorial

 Genesis.

Não, este não pretende ser mais um jornal no deserto chamado lusofonia. O SOCIOCULTURALISTA é sim um veículo de imprensa, mas nem por isso tem como objetivo ser um jornal. Um jornal tem – ou dever ter – como objetivo, o relato de, potencialmente, todos os fatos. Um jornal estende-se das análises políticas às páginas policiais. Na direção oposta, o SOCIOCULTURALISTA parece muito mais com os panfletos iluministas que dominaram o final do Século XVIII e início do Século XIX. O SOCIOCULTURALISTA defenderá explicitamente uma idéia em seu editorial – é ideário! – e não se esconderá atrás da peneira que muitas vezes é utilizada como barreira: a imparcialidade jornalística. Como todo opinião fruto do intelecto humano, os artigos deste panfleto serão sim parciais e suas opiniões serão de responsabilidade de seus autores ou, quando no Editorial, da própria instituição. O SOCIOCULTURALISTA deseja ser democrático, alcançar – como fizeram os panfletos iluministas -, dos bares aos salões – ou, no caso do micronacionalismo, de Reunião à Normandia. Em linguagem simples e objetiva, de forma plural e intermicronacional, com uma meta em mente, o SOCIOCULTURALISTA exercerá seu papel.

Pensamento Socioculturalista

O que é socioculturalismo?

Como é sabido, correntes diversas habitam o universo micronacional lusófono. No cenário atual, podemos exemplificar as fotos fictícias utilizadas para ilustrar a coroação do Rei de Pathros como um dos extremos deste espectro – neste, valoriza-se a aparência. De tal feita, os chamados “virtualismos” e a emulação de uma sociedade ficcional são os elementos centrais. Por seus próprios praticantes, o micronacionalismo é visto como uma diversão, uma brincadeira – séria, no entando, ainda uma brincadeira. Em outro lado, temos o realismo pasárgado, que exorcisa os virtualismos como pecados capitais, inferindo que só a eliminação destes pode tornar uma micronação séria.

A oposição entre realismo e virtualismo é a que dominou grande parte do debate micropatriológico lusófono. Estes afirmavam que os virtualismos atraíam em ajudavam a inserção dos novatos no micronacionalismo. Por outro lado, aqueles diziam que os virtualismos eram uma grande perda de tempo. Grosso modo, discutía-se quais estruturas eram ideais para a prática do micronacionalismo.

O socioculturalismo, neste aspecto, diverge de toda esta gama de interpretações. Sua base epistêmica é outra. Pouco importa a estrutura micronacional, o que de fato é importante é qual é o micronacionalismo apresentado. Como diz seu nome, o socioculturalismo busca enfatizar um micronacionalismos que valorize as relações sociais reais dadas entre os agentes micronacionais e a consciência cultural de comunidade imaginada emergida destas relações. Seja em Pathros ou Pasárgada, a despeito de nosso meio virtual de comunicação e independentemente do nível de virtualismos da nação, as relações sociais são reais.

Como experiência nacional em miniatura, o micronacionalismo não difere em substância do nacionalismo, mas somente em escala [micro-]. Nesse sentido, a valorização destes elementos que compõe o exercício nacional [nationhood] é o que tem de ser valorizado. Assim, as estruturas devem ser as que dêem melhor condições a esta consciência. Não busca o “seja tudo o que você quer ser”, tampouco o “seja o que você é”, mas sim o “seja o melhor de você”.

Artigo

Diferença em escala, não em substância – Carlos Góes

Benedict Anderson, sociólogo de nacionalidade britânica – a despeito de ter nascido em solo chinês – é expoente nos estudos de nacionalismo. Seu livro Comunidades Imaginadas posa, ao lado de Nations Before Nationalism (1982), de JA Armstrong e Nações e Nacionalismos desde 1788 (1990), de Eric Hobsbawm, como um dos marcos no estudo da matéria.

A base do estudo de Anderson repousa em sua definição para nação: “uma comunidade política imaginada – e que é imaginada ao mesmo tempo como limitada e soberana”. Limitada pois aí reside aí diferença entre o compatriota e o estrangeiro. Soberania que se reflete no “direito de autodeterminação dos povos”.

O que aqui nos interessa é a idéia de que a nação não é algo existente ex nihilo, mas algo construído sociologicamente, por meio da mídia e das relações sociais. Em última instância, uma nação só existiria “nas mentes e nos corações de seus cidadãos”.

Qual é a razão de um presidente ser reconhecido como tal? Legalidade ou legitimidade, qualquer das situações passa, no mínimo, pela aqüiescência dos membros de sua nação. Os reis da França absolutista o eram pois conseguiam, seja por meio da força ou pela “legitimidade divina”, fazer com que seus súditos os vissem como tal.

De tal feita, o micronacionalismo não difere, em substância, da qualquer outra experiência nacional. Sendo em miniatura, sua diferença é em escala. Um Chanceler, Presidente ou Imperador é visto como tal “nas mentes e nos corações de seus cidadãos”. Estes títulos não são simulados, são tão válidos quanto o de Presidente do Brasil ou Rainha da Inglaterra. A diferença está na amplitude de seu reconhecimento.

Enquanto quase todo o globo reconhece Elizabeth II como Rainha da Inglaterra, somente os micronacionalistas reconhecem Cláudio I como Imperador de Reunião. Novamente, diferença de escala, não em substância.

Um exemplo factual que mostram escalas de reconhecimento diferentes pode ser visto quando da Revolução Chinesa. Quando Mao Tsé-Tung marchou sobre Pequim e se tornou de facto o líder da China, Chiang Kai-Shek declarou um “governo no exílio” instaurado em Formosa, mas reivindicando soberania sobre toda a China continental. Enquanto Mao era reconhecido pelos países do bloco soviético, os ocidentais ainda reconheciam Taipé como sede provisória de governo. Até 1971, foi o “governo no exílio” da República da China que ocupou o assento permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Esses conflitos mostram que não existia título “mais válido” que outro. Existe escala de reconhecimento, tudo relativo. E isso corrobora com a identidade entre o micronacionalismo – como experiência nacional em miniatura – com as experiências nacionais extra-micronacionais. Corrobora para mostrar que a diferença é de escala, não de substância.

Expediente

Editor – Carlos Góes

Redação – Carlos Góes, Filipe Sales e Rodrigo Mariano.



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