O Socioculturalista #3

16Abr07

Editorial

Os extraordinários reacionários

Como os leitores devem saber, tive a honra de organizar e comentar um livro que reúne textos de Felipe Aron, socialista micronacional e pasárgado histórico [para descarregar este livro, clique aqui]. Apesar de já ter lido a maioria dos textos que Aron já tinha publicado, me aventurar novamente e lê-los com esmero e dedicação foi uma aventura sem-par. Me deparei com um tesouro, um conceito sensacional, que – sozinho – já justificaria toda a trajetória intelectual de Aron.

Tentando aplicar o conceito de classe social ao micronacionalismo, Felipe Aron utiliza-se da dicotomia traçada por Bruno Cava, entre Ordinários e Extraordinários. Até aí, nada de novo. É quando Aron introduz sua inovação: existem extraordinários revolucionários e reacionários. Existem aqueles que desejam buscar uma sociedade “politizada” – em suas palavras – e os que simplesmente se acomodam em viver rodeados de ordinários, moldando-os a seu bel-prazer. Aron chega a dizer que estes reacionários são “traidores” de classe.

Esta situação serve para ilustrar claramente o atual cenário político reunião. Há, claramente, uma dicotomia. A similaridade é que ambos os lados estão descontentes com a situação atual. Opõem-se, entretanto, aqueles que buscam TRANSFORMAR a ordem atual, para algo que esteja direcionado a um projeto nacionalista, propriamente dito (ver O SOCIOCULTURALISTA 1 e 2) e os que desejam REFORMAR a atual ordem, levando-a de volta a tempos que são, em suas mentes, áureos. Existe também um grupo híbrido que, apesar de saber da impossibilidade de reforma do status quo, esbraveja em seu favor, simplesmente para manter seu grupo de fiéis.

Essa é a situação atual do Sacro Império de Reunião. Há um grupo que pretende-se revolucionário – mesmo sem sabê-lo – por propor coisas novas, novos meios de realizar o micronacionalismo. Por outra parte, existe aquele que sonha com as idas de 2000, com as “maravilhas” mensagísticas: o “verdadeiro” micronacionalismo – que não é conceitos teórico com critérios especificados, mas sim político. Existe a necessidade de uma escolha e cabe a nós – todos – fazê-la.

Pensamento Socioculturalista

Dicotomia no micronacionalismo: os velhos paradigmas – Carlos Góes e Filipe Sales
Em épocas de web 2.0 e em que colaboração é a idéia mais propagada pela Internet, faço este texto em parceria com Filipe Sales, com base em textos que o mesmo produziu para o sítio de Maurício, mesmo sem ele próprio ter visto o resultado final.
A micropatriologia em língua portuguesa – como estudo que se propõe científico do fenômeno micronacional – vem em constante, embora cambaleante, evolução desde os primeiros esforços de teorização. Qual seria a influência da micropatriologia no micronacionalismo? Baseando-se no que, nas ciências sociais, chama-se “construtivismo social”, teríamos duas interpretações de ciclos científicos.
O ciclo primário seria: há a realidade e, sobre essa realidade, surgem análises científicas que geram, por sua vez, políticas (no caso presente, projetos micronacionais). Neste caso, uma mudança na realidade gerariam novas teorias, novas análises, para enfim, adaptar as políticas. Um outro ciclo, que é o que proposto pelo construtivismo, afirma que o que nasce primeiro são as teorias e que estas, influenciando as políticas, modificam a realidade. Não é preciso dizer que ambas, na prática, convivem. Se é certo que as primeiras análises tiveram como subsídio o fenômeno observado, temos a experiência pasárgada para comprovar que uma visão de mundo pode alterar a própria realidade.

Até o momento, a micropatriologia se baseou na dicotomia entre realistas e virtualistas, sendo estes modelos – paradigmas – o que importava do realizar micronacional. Essas estruturasdefiniriam não só o que se daria na micronação que as abraçavam, mas também carregavam elementos valorativos em si (Cava uma vez citou que muitos sofistas não consideravam os pasárgados micronacionalistas, pois não tinham mapas e afins, “estariam mais para ong’s”, enquanto pasárgados consideravam os mapas de Sofia “brincar de banco imobiliário).

Os velhos paradigmas consistem em alguns pressupostos perculiares a si próprias.

A Escola Virtualista defende que o micronacionalismo se relaciona com uma simulação fantasiosa da realidade – a famosa “emulação”. Sua concepção de micronacionalismo abraça tão somente os projetos surgidos a partir da Internet como ambiente natural, e tratam as relações sociais internas ao ambiente micronação como situação alheia a própria vida pessoal do indivíduo. Isto se expressa claramente da divisão “micro” e “macro”, tão utilizada na maioria da micronações lusófonas.

Primeira Escola de micronacionalismo surgida na lusofonia, quando do aparecimento do Reino de Porto Claro, em 1992 e, posteriormente, do Sacro Império de Reunião, em 1997, o Virtualismo encara como necessário a existência do micronacionalismo elementos fictícios que amparem o desenvolvimento de suas sociedades. A Escola Virtualista tem como principal pilar a doutrina denominada “modelista”, nomenclatura utilizada pelos micropatriólogos estadunidenses para designar as micronações que existem misturando ficção e realidade dentro de seu projeto.

Com a chegada do século XXI, após o surgimento da Comunidade Livre de Pasárgada, cujo doutrina principal se ampara na Escola Realista, os elementos fictícios que se relacionam ao micronacionalismo virtualista começaram a sofrer enfraquecimento dentro das micronações lusófinas.

Dentre os principais elementos fictícios que alimentam a Escola Virtualista, os territórios referenciais figura como mais importante. Relacionando partes geográficas do globo terrestre como referências territoriais para uma micronação, os Virtualistas defendem a importância da ligação de um projeto de simulação com uma referência material no planeta, sem, todavia, reivindicar qualquer pretensão material sobre aquela localidade geográfica.

Em agosto de 2004, um círculo de debates surgidos na Fundação Pablo Castañeda, na extinta República de Marajó, tratou pela primeira vez de definir a natureza dos territórios abraçados pelas micronações da Escola Virtualista como parte fictícia de sua estrutura política. Das discussões na Fundação Pablo Castañeda, duas correntes distintas surgiram a partir do tema: a primeira defendia que, de fato, haveria a possibilidade de uma micronação reivindicar parte do território do globo terrestre como integrante de sua identidade cultural sem, todavia, reivindicar na posse material sobre o mesmo (secessão), o que tornaria os território referenciais [os fictícios] parte essencial de uma micronação. A segunda teoria defendeu que os territórios referenciais são apenas um ícone cultural de uma micronação, de forma que sua existência à mesma é totalmente dispensável, não sendo necessária a sua existência.

A partir dos momentos que seguiram a fundação de Pasárgada e aos debates na Fundação Pablo Castañeda, o vínculo das micronações lusófonas em relação a Escola Virtualista diminuiu, embora sua presença, mais enfraquecida, esteja em quase todos os projetos da lusofonia.

Já a Escola Realista apareceu materialmente, no micronacionalismo lusófono ambientado na Internet, apenas em 2002, com a fundação da Comunidade Livre de Pasárgada, que pela primeira vez no grupo de micronações de idioma português, inseriu como base a idéia de que o micronacionalismo é um fenômeno social verdadeiro e real, e que faz parte da vida pessoal dos indivíduos que o compõe tanto quanto qualquer outra atividade. Todavia, a existência desta corrente é bastante anterior a fundação daquela micronação.

A Escola Realista baseia sua doutrina na idéia de que o micronacionalismo, em si, é um fenômeno concreto, cuja existência não depende de qualquer ficção ou fantasia das pessoas que dele participam. Para os realistas, o micronacionalismo não se separa da realidade de nossas vidas pessoais, de forma que, nele, não há contradição ou incompatibilidade entre a realidade e a ambientação de uma micronação na Internet, de forma que o fenômeno micronacional na Internet apenas reflete relações sociais concretas cuja comunicação se dá por meio do ambiente virtual.

A Escola Realista, em razão de suas posições concretas sobre o micronacionalismo, foi a primeira doutrina a se opor a Escola Virtualista, e suas ações pela primeira vez atingiram o monopólio do Virtualismo. A partir do ano de 2002, com a criação da Comunidade Livre de Pasárgada, os Realistas pela primeira vez incrustaram as idéias realistas em um projeto micronacional. Com a extirpação de todos os virtualismos tradicionalmente existentes, Pasárgada foi o primeiro projeto lusófono a existir totalmente alheia a elementos fictícios que compunham o micronacionalismo até então.

A Escola Realista é resultado de uma alteração da tradicional doutrina derivatista das micronações, surgida nos Estados Unidos da América, com projetos micronacionais que, relacionando participantes em uma sede material em uma cidade, buscavam, aos poucos, conquistar algum tipo de autonomia sobre seu território. Não são ambientadas na Internet. O maior exemplo destas micronações derivatistas é o Reino de Talossa, considerada a primeira micronação moderna.

Ambas as Escolas, são, entretanto irmãs epistemológicas. Ambas partem do pressuposto que o que importa no micronacionalismo é se existem ou não determinados elementos estruturais de caracterização de micronação.

O Socioculturalismo, por sua parte, propõe uma nova interpretação dessa realidade. O Socioculturalismo faz uma análise teleológica do fenômeno micronacional. Ao invés de se perguntar como se dá o fenômeno, se pergunta: qual é o propósito, qual é o fim do projeto micronacional? Se o fim for criar um projeto de nação, que gere laços imaginados de identidade real entre seus membros, o fim é verdadeiramente um [micro-]nacionalismo.

Sobre análises empíricas, o Realismo, em geral, propicia condições mais favoráveis para a experiência nacional, mas isto não exclui a possibilidade de, em um ambiente realista, não se desenvolver projeto de nação ou, ainda, a de, com a presença de virtualismos, se dê verdadeiramente um projeto nacional. O que importa é focar nos elementos culturais, doutrinários que geram os laços imaginários de identidade emergidos das relações sociais entre seus membros.

Expediente

Editor – Carlos Góes

Redação – Carlos Góes, Filipe Sales e Rodrigo Mariano.



No Responses Yet to “O Socioculturalista #3”

  1. Deixe um Comentário

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: