O Socioculturalista #5

04Maio07

Editorial

O caminho mais fácil
Existe um caminho que é sempre mais fácil de seguir. Não necessariamente o mesmo é o caminho correto. Lembro-me de uma anedota contada pelo sociólogo da Escola Frankfurt Claus Offe. Ele falava de uma situação em que um senhor alcoolizado caminhava pelas ruas de Berlim. Repentinamente, se dá conta que perdeu suas chaves. Se agaixa sob um poste de luz e passa a procurá-las. A seguir, um guarda alemão o aborda, perguntando sobre o que aconteceu. O senhor informou que tinha perdido suas chaves. O guarda idagou: “Aqui, sob o poste?”. E o senhor respondeu: “Não, alí no escuro, mas aqui é mais fácil de procurar”.
E sobre esta base que se dá a falsa dicotomia entre “micro” e “macro”. É muito mais fácil aceitar que estamos vivendo “realidades separadas”, que o micronacionalismo não é nada além de um Jogo de Realidade Alternativa – uma espécie de Lost Experience em formato de nações. Esquecem-se que, ao contrário do Lost Experience, não convivemos com personagens criados pela cabeça de escritores da Buena Vista, mas sim pessoas reais, com toda a carga intelectual, emocional e social que carregam.
Micronacionalismo é fenômeno social por excelência. É por isso que não faz sentido dizer que “autores macro” – como recentemente foi defendido pelo Premier de Reunião – não devem ser utilizados no micronacionalismo. Ora, não devemos utilizar teorias sociológicas para analisar um fenômeno social? Ou teorias do nacionalismo para analisar um fenômeno nacional? Do mesmo modo, as ideologias têm ação em qualquer campo social. O nazismo não é repudiável no micronacionalismo? “Aqui no micronacionalismo não interessa o que Hitler fez ou não” – foi a resposta do Premier de Reunião.
Não consigo conviver com esta idéia. Como poderia ter eu determinados princípios “macro” e outros “micro”? Como poderia ser cristão “macro” e ateu “micro”? Somente se fosse, patologicamente, diagnosticado como esquizofrênico – diria Bruno Cava. Trago uma seleção de artigos que, apesar de relativamente já antigos, são ainda vanguardistas – a considerar pela realidade reuniã.

 

Artigo

Fundamentos da realidade micronacional – Bruno Cava, Agosto de 2004.

VIRTUALISMO – Fato imaginário, inventado, sem correspondência com a realidade objetiva. O virtualismo se revela quando elementos da fantasia são incorporados ao mundo micronacional. Não deve ser confundido com virtual, virtualidade, Internet. Exemplos de virtualismos: história da micronação “construída” sobre factóides, territórios ficcionais, personificação, paplismo; em essência: são acontecimentos que fogem à projeção da realidade subjetiva dos micronacionalistas, sendo exercício da fantasia, da abstração ficcional. (GLOSSÁRIO INPAM 2004).

 
Uma forma bastante comum de conceber o fenômeno micronacional é por meio da idéia da simulação, isto é, o micronacionalismo simula a realidade, é uma realidade simulada, uma reprodução elaborada do “macro”. A micronação é simulação de “macronação”, dos países propriamente ditos. A reprodução de território, cultura, governo, sociedade, partidos etc são integrantes desse mundo simulado, ou mundo micronacional. Nesta visão filosófica, o micronacionalismo se trata de uma ficção elaborada, à semelhança da realidade, mas não fazendo parte dela, ainda que possamos exercitar capacidades e aprender nesse simulacro.
 
Apesar de difundidos na Lusofonia, os pressupostos supracitados não são o único sistema geral de filosofia do micronacionalismo. Com efeito, é um sistema que vem sendo, paulatinamente, substituído por outro, com mais correspondência aos fatos. Façamos considerações preliminares.
 
Pressuposto: nós somos, então, enquanto formos nós mesmos ao atravessarmos a lente do micronacional (da Internet?), nossas relações também são, serão autênticas, projeção da realidade de cada um e, portanto, tão reais quanto quaisquer outras. A micronação não simula, a micronação é. O micronacionalismo não se trata necessariamente de uma simulação, mas de uma realidade, de parte dela, não-simulada. A micronação não simula sociedade, mas é por si só uma sociedade, evidentemente em miniatura. Nesta sociedade, pode-se criar uma cultura particular, quiçá uma cultura nacional, o que nos leva ao conceito de nação, novamente em miniatura, uma micro-nação, micronação.

Em síntese: se nós somos, nossas relações são, então a micronação – que é construída pelas relações – também é. Contudo, se nós não somos, se nos transfigurarmos em outras pessoas, não sendo; ou se as relações forem imaginárias, igualmente não sendo; então a micronação não é, tornando-se apenas uma frasco para um conteúdo qualquer, inventado, o virtualismo. O conteúdo real do micronacionalismo está na autenticidade de seus protagonistas e no realismo de suas relações e fatos. Do outro lado, há o virtualismo, o “não-conteúdo”, a fração irreal da prática micronacional, esta sim, indo ao encontro à idéia de simulacro.

Voltemos à concepção escapista. E o “macro”? Muitos associam a palavra “macro” como a “vida lá fora”, a “vida real”, ou mesmo “realidade” (“realidade real?”). O “macronacional” é onde desempenhamos nossas “verdadeiras vistas”. Ao “entrar” no mundo micronacional, ao contrário, deixamos nossa “existência real” de lado para mergulhar num “eu micronacionalista”, que em nada precisa se assemelhar ao eu individual, que nem precisa responder por seus atos (tese da irresponsabilidade micronacional). Indo mais fundo no escapismo, o “eu micronacionalista” é um personagem, que vive apenas dentro do mundinho simulado e estanque, quase uma caricatura, um alter ego, mais que uma máscara, um outro alguém.

Grande parte desta separação micro e macro nasce da linguagem. Quando novatos, somos tão martelados com micro e macro, micro e macro, micro e macro, que acabamos induzidos a pensar que se trata de duas realidades: microcosmo e macrocosmo, separados por uma fronteira invisível. Estabelecemos um pressuposto traídos pela armadilha das palavras. Daí para o escapismo é decorrência lógica.

Entretanto, o que é, com franqueza, o “macro”? 
 
Estamos diante da crônica dificuldade em diferenciar os conceitos de “separar” e “distinguir”. O mundo micronacional é uma esfera distinta do “macro”, distinta porque tem caracteres próprios, uma dinâmica própria, um meio de realização (que pode ser virtual) próprio, mas não se separa. Somente um doente de dupla-personalidade, ou uma micronação que fosse um delírio completo, poderia se destacar da realidade assim. 
 
Repare: a esfera familiar de convivência também se distingue, por suas características próprias, da realidade; o mesmo vale para a esfera profissional, a esfera social, a esfera universitária… a realidade pessoal, de cada um, nada mais é que um conglomerado de esferas de convivência, de espaços distintos de existência, mas nem por isso um microcosmo.

O mesmo vale para o micronacionalismo, que também é esfera de convivência humana, com suas “regras” próprias, da mesma forma que a esfera familiar ou a profissional, apenas para citar exemplos universais. Nelas, somos nós mesmos, ainda que assumamos diferentes posturas. Daí é lúcido e real que eu seja um político pasárgado, enquanto, ao mesmo tempo, eu seja o filho querido na família e o competente funcionário no trabalho. Tudo é questão do papel que assumimos em determinada esfera de convivência, porém, no fundo, em todas elas, somos nós mesmos, um ser uno, uma só consciência, numa realidade una que se revela de diferentes formas. Vale apontar, ainda, que as esferas podem se interpenetrar, e geralmente se interrelacionam, confundindo-se em alguns pontos como numa empresa familiar, ou quando saímos com a chefe… ao mesmo passo ocorre com o micronacionalismo. Uma prova muito forte que não existe essa separação, que é artifício sem sustentação, é justamente quando ocorre a interpenetração entre a esfera micronacional e outras da vida.
CONCLUSÃO
 
Continuar adotando a dicotomia micro/macro só é válido se entendermos o “macro” como tudo aquilo extra-micronacional, isto é, o que não tem natureza eminentemente micronacional. O micro como sub-conjunto do “macro”, absolutamente dependente e relacionado, já que o “macro” é a realidade. Como a esfera familiar, com suas regras e papéis próprios, é uma esfera dependente e relacionada da realidade. Já há micronacionalistas, para evitar a armadilha da linguagem, que estão utilizando “extra-micronacional” em substituição a “macronacional”.

Expediente

Editor – Carlos Góes

Redação – Carlos Góes, Filipe Sales e Rodrigo Mariano.



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