O Socioculturalista #6

10Maio07

Editorial

A vantagem da democracia
Micronacionalismo para mim está intimamente relacionado a aprendizado, evolução. Durante dois anos, vivenciei a realidade de Reunião, que tem sua lógica peculiar. Naturalmente, o Imperador, por absoluto, acaba por fazer girar em torno de si toda a micronação. Como em todo Império o eixo de aglutinação é a Monarquia e não a identidade nacional abstrata. Como relatado pelo notável Carlos Fraga em entrevista à Rádio Reunião: “antes de tudo, meu partido é o Imperador”.

Nesse sentido, grande parte dos cidadãos de Reunião acabam por reclamar seus objetivos diretamente ao Imperador, ao invés de tentar seguir a lógica natural de respeito às competências dos Poderes ordinários: Judiciário, Legislativo e Executivo. Isso garante, certamente, grande estabilidade ao sistema reunião: é fato que o mesmo assegura a continuidade do projeto. Por outra parte, fica à mostra a política hobbeseana crua: o jogo de poder é evidente e público, e as regras são sempre dobradas para favorecer ao grupo que consegue fazer mais pressão sobre o Imperador.

Certamente, aprendi muito com isso, inclusive a ser precavido, ao invés de ter confiança em todos. Não consegui, todavia, ceder ao jogo de interesses clarividente em Reunião, à busca pura e simples por poder e posições políticas.

A Democracia, ora vivenciada por mim em Pasárgada, abre novas oportunidades. Abre a oportunidade de ver a vivência em um sistema em que não há “dono da bola”, onde os conflitos são administrados na esfera pública e as regras do jogo estão claras. Espero poder fazer aqui política – com bases ideológicas – e não politicagem. Quero lançar projeto de nação e não projeto de poder.

Pela recepção e os convites a ingressar às Casas que tive, isto será possível. Realmente espero que esteja eu certo.

 

Pensamento socioculturalista

Micronacionalismo do Século XXI – Carlos Góes.
Qual é o motivo do esvaziamento do micronacionalismo?!

As respostas para a pergunta supracitada podem ser variadas. Proponho uma que é ampla o bastante para abranger uma série de fatores e suficientemente polêmica para provocar reflexão: o fato é que praticamos o micronacionalismo do mesmo modo que o fazíamos há dez anos. A despeito da mudança no calendário, ainda fazemos o micronacionalismo do século passado.

De qual modo ficamos parados no tempo?

Primariamente, no sentido da compreensão do que é de fato o [micro-]nacionalismo. A idéia fixada por Reunião e Porto Claro, dos famosos “país-modelismo” de Aguiar ou “hobby” de Cláudio de Castro, continua a ser predominante na Lusofonia. Ainda é predominante o micronacionalismo como emulação – misto de hobby e diversão. E, nesse sentido, o micronacionalismo está em grande desvantagem contra as novas oportunidades de emulação que existem na rede.

Em 1997 o que havia de diversão interativa na Internet eram as salas de chat e o IRC. Nesse sentido o micronacionalismo tido como emulação era um competidor respeitável às mesmas. Hoje, entretanto, o micronacionalismo, se visto como emulação, tem de competir com o Second Life, World of Warcraft e similares. Quem está a procura de diversão, tende a ficar com estes últimos.

De tal feita, precisamos de uma revisão no conceito dado ao micronacionalismo. Isto, pois, para os que não conhecem o micronacionalismo, o formato no qual o mesmo é apresentado dá a impressão de algo como uma “brincadeira séria”, ou – “RPG de diplomacia”, como disse um amigo meu ao ser apresentado ao sítio de Pasárgada.

Ainda se tem receio de ver que a [micro-]nação somente diferem das outras em relação a sua escala. Aquele que estuda um pouco de teoria do nacionalismo, chega naturalmente à conclusão de que os variados conceitos de nação coincidem em uma coisa: se relaciona aos laços de identidade entre indivíduos, que se sentem ligados – ainda que não se conheçam – por meio de uma entidade imaginada denominada “nação”. São estes laços imaginados que fazem com que um catarinense e um potiguar sintam-se identificados com os mesmos símbolos nacionais: a bandeira, o hino, a história, o futuro. São os mesmos laços que fazem com que dois peruanos, ao se encontrarem na Europa, sintam-se “em casa”, ainda que longe de sua terra natal.

Nação não é um conceito que se relaciona, necessariamente, a determinado território. Os judeus na diáspora continuaram a manter características nacionais, entre eles a idéia de um passado e destino comuns. Do mesmo modo, um português no Brasil ainda faz parte de sua nação, ainda que no estrangeiro. Nação é um conceito imaginado.

Outrossim, falta às micronações assumirem, de fato, sua nacionalidade – não o conceito jurídico, mas o senso de pertencimento à nação. Ao se cultivarem os laços de nacionalidade, naturalmente, o senso de pertencimento do novato muda do eixo emulacionista para o realista/nacionalista. Naturalmente, os que buscam por emulação tendem a se desanimar. Por outra parte, aquele que busca por novas experiências, por uma evolução pessoal, por uma experiência nacional que seja diferente àquela das estruturas dos Estados-Nação tradicionais, poderá ser atraído. Alguns da extra-lusofonia já compreenderam isto, de certa maneira. O caso mais notável é o do Quinto Mundo (ver http://5world.net/ e http://groups.msn.com/FifthWorld). Falta-nos este passo.

Não obstante, é fato que os velhos e-mails não ajudam a construir a identidade nacional. Aí que entra o segundo ponto do novo micronacionalismo: precisamos aproveitar mais das novas tecnologias.

Se Pasárgada contribuiu paradigmaticamente para demonstrar que o micronacionalismo é feito de pessoas reais e que, por conseguinte, as relações sociais que aqui se dão também são reais, temos de ir além. É muito mais simples compreender esta realidade por meio de conferências de voz ou video-conferências do que por e-mail. E isto ainda acabaria com um velho problema do micronacionalismo: o paplismo.

E é interessante ver que a raíz deste pensamento já se encontrava, incrivelmente, no pensamento de Pedro Aguiar. Isto se fazia claro quando Aguiar dizia PC não estava “na Internet”, mas se utilizava da Internet. Do mesmo modo, precisamos nos utilizar de novos métodos, mas com um objetivo claro: não o de emular, mas o de reforçar a idéia de nação.

A mudança tecnológica não é uma mudança que vai somente transferir o problema da integração das listas de e-mail às novas tecnologias. Ao contrário, elas contribuem para melhorar os métodos de construção de um senso de pertencimento nacional. É por isso que sua adoção e essencial, desde que estejam orientados para o objetivo primaz de contrução da nação.

Expediente

Editor – Carlos Góes

Redação – Carlos Góes, Filipe Sales e Rodrigo Mariano.



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