O Socioculturalista #12

30Mar08

Editorial

A volta dos panfletos.
Há cerca de seis meses era lançado O Socioculturalista número 11.Era a primeira fase de nosso projeto: delineação paradigmática, propagação de idéias e tentativa de implementação de um projeto. Foi um período importante, embora conturbado – tanto na consolidação da Escola Socioculturalista no micronacionalismo lusófono, quanto em meu caminho micronacional. O socioculturalismo impactou e polemizou: provocou a perseguição generalizada contra mauritanos – encabeçada pelo ex-Lorde Protetor Gerson França; e a rejeição de minha postulância à cidadania em Pasárgada – situação até o presente parcamente compreendida por mim.O interessante foi ver que o socioculturalismo influenciou intermicronacionalmente, a julgar pelos feedbacks pessoais que tive – via Messenger ou e-mail. Chegou, para mais além de Maurício, a toda Reunião, a Pasárgada, a Porto Claro, a Pathros, à Alemanha e, curiosamente, ao clero micronacional. Isso foi, sem dúvida, uma realização. Foi frustrante, todavia, a ausência de um projeto verdadeiramente socioculturalista levado a cabo em alguma micronação. A importante experiência mauritana fora esmagada ainda infante – o que inviabilizou uma análise empírica das proposições socioculturalistas.

É importante notar, sem dúvida, que ainda existia um choque de interesses muito claro no micronacionalismo de outrora. Choque que Felipe Aron classificaria como uma dicotomia entre extraordinários revolucionários vs. extraordinários reacionários. Estes, amantes do velho micronacionalismo, que se prendem aos velhos métodos e às tradicionais tecnologias, sonhando com os “áureos” tempos do fim do Século XX. Aqueles, que sabem que a essência micronacional não é mensagísticas ou polemicista; que compreendem que um projeto [micro-]nacional reside nos laços de identidade, na cultura, na aspiração de um destino comum, em um locus coletivo, em – nos dizeres do marcante sociólogo Benedict Anderson – uma comunidade imaginada.

Fato é que, após as conturbadas polêmicas de 2007, uma espécie de modus vivendi se estabeleceu. Arrefeceram-se as disputas e, claramente, no decantar da história, existe hoje uma clara tendência que favorece as experiências de revolução micronacional. Uma revolução que nada tem a ver com marxismo – ressalte-se. Uma revolução que muda concomitantemente dois elementos . Por uma parte, que modifique o modus operandi micronacional, por meio da transformação dos meios de comunicação que utilizamos – a revolução tecnológica. Por outra, que vincule o micronacionalismo a sua definição elementar: a existência de um projeto [micro-]nacional – a revolução teleológica.

Nesta edição de retorno, apresento tradução do marco-teórico anglófono de Peter Ravn Rasmussen – Príncipe da Corvínia – sobre a definição de uma idéia tão cara à prática micronacional: a nação. Nossa equipe, conformada por mim, Filipe Sales, Rodrigo Mariano e Fernando Cardozo está trabalhando intensamente na produção de artigos para alimentar, nas semanas futuras, as próximas edições de O Socioculturalista.

 

Artigo

Definindo a idéia de nação – Peter Ravn Rasmussen. (reeditado)

Os seres humanos são animais tribais, com a tendência de se organizar em pequenos grupos em torno de machos e fêmeas dominantes – como um grupo de macacos em árvores. O elemento fundamental da organização humana é um grupo tribal e local, que, em sociedades mais avançadas, formam a base de uma estrutura mais elaborada de sociedade civilizada.

A idéia de nação (da palavra latina natio, que deriva de natus “nascido”) implica em um relacionamento comum de sangue. De fato, este relacionamento raramente é factual – mais comumente, deriva de um suposto ancestral comum. Este ancestral comum pode ser uma figura histórica, ou, na maioria das vezes, um ser mítico.

Colocando o tribalismo à parte, os laços que unem um grupo de pessoas em uma nação são muito mais complexos que simples relacionamentos sangüíneos (reais ou imaginários). Este relacionamento somente pode subsistir nos mais baixos níveis de organização social (e mesmo assim, hierarquias locais organizadas por sangue se tornaram raras no mundo moderno). À medida que a sociedade civilizada cresce, cada vez mais complexa, a nacionalidade se cria em função de uma série de fatores – sendo a ancestralidade comum somente um deles.

A linguagem é um fator, sem dúvida alguma – embora existam nações que existam com múltiplas línguas (obviamente, para cada história de sucesso, há um contra-exemplo de desintegração nacional por elementos lingüísticos). Entretanto, as nações com uma única linguagem dominante usualmente utilizam-se desta língua definir que eles são. Este é particularmente o caso daquelas situações em que a língua é extremamente difícil para que estrangeiros aprendam (e.g. dinamarquês, finlandês ou japonês).

A cultura e os artefatos da cultura, são importantes para a definição da nação – pergunte aos gregos sobre a importância dos Mármores de Elgin ou a um dinamarquês sobre os Chifres de Ouro. Usualmente, os artefatos culturais que mudaram de mãos ao longo da história se tornam objeto de disputa nacional, ícones de falta de afeição entre as nações envolvidas.

Os proponentes de uma ideologia nacionalista usualmente lançam mão da idéia de que sua nação é imutável e “original” – que as doutrinas e atributos de sua nação são fixos, e foram parte da característica nacional desde antes da invenção da escrita. Por exemplo, os nacionalistas alemães recordam a vitória sobre as legiões romanas nas Florestas de Teutoburgo, pelo líder tribal germânico Arminius (“Hermann”).

Não obstante, há claras evidências que nenhuma nação são entidades imutáveis. Paradoxalmente, se existe uma constância na sociedade humana, é sua transformação, e isso assegura que uma nação de hoje seja completamente diferente da nação de mesmo nome que existiu há uma geração. As nações estão evoluindo e modificando-se, tudo ao mesmo tempo.

Em resumo, alguns dos atributos da existência nacional [nationhood]:

  • Uma postulação comum de interrelacionamento – um laço “sangüíneo” entre os membros. Este relacionamento pode ser real, mas mais comumente, deriva de um mito;

  • Uma herança cultural comum. Esta herança, e particularmente os artefatos culturais (e também, por vezes, estruturas institucionais) que esta herança gerou, representam o “patrimônio” da nação, que é usualmente dotado de um considerável valor sentimental, à extenção de que ataques ao mesmo são respondidos com uma violência emocional;

  • Coerência lingüística, na forma de uma ou mais línguas identificadas com a identidade nacional. Quão mais únicas e difíceis forem estas línguais, mais forte será o vínculo emocional a elas, como algo que deve ser defendido. Em um mundo de telecomunicações de massa e de onipresença do inglês como língua franca, esforços estão sendo levados a cabo em todos mundo para proteger as línguas nacionais (mais claramente, na Islândia e na França);

  • Um sentimento de identidade, pelos membros, com a nação. A idéia de pertencimento nacional está claramente fundado na psiqué humana, e os membros de uma nação respondem de forma visceral a qualquer ameaça a mesma, seja esta real ou uma simples percepção.

Observando a lista acima, um leitor astuto verá que de forma alguma, ela é exaustiva – como não contém todos os atributos requeridos à existência nacional. Particularmente, um elemento ausente está inexoravelmente ligado à ideologia nacionalista: o território.

O território – sustento – não é uma algo conexo à nacionalidade, embora nos últimos século e, particularmente, desde a década de 1860, ele tenha se tornado encrustrado à base ideológica de muitas causas nacionalistas. A idéia de “terra natal”, este domínio quase mítico que é herança inalienável da nação é um conceito tão antigo quanto o Velho Testamento. Somente depois de Bismarck, entretanto, as aspirações territoriais de uma nação se tornaram tão importantes quanto são hoje.

Isso nos leva ao mais problemático de todos os conceitos: o de Estado-Nação. Os movimentos nacionalistas do Século XIX e posteriores criaram (ou, ao menos, evoluíram) este conceito, ligando a nação à terra. Esta percepção de inseparabilidade entre “Blut und Boden” (Sangue e Solo) causou várias guerras, nas quais duas nações reclamavam o mesmo território – e ambas reservavam seus “direitos” à terra com uma devoção quase divina.

O Estado-Nação, portanto, encorpa a idéia nacionalista de que deveria existir uma completa correspondência entre as nações e os Estados que as governam. Os tchecos deveriam ter uma terra tcheca, com um estado tcheco soberano a governando, -ai.

Este seria um princípio importante, se não fosse contrário aos fatos – o fatos sendo que existem pelo menos 8000 nacionalidades (factuais ou potenciais) na face da Terra, e que suas terras-natais reivindicadas frequentemente se sobrepõem. De modo similar, o ideal nacionalista de um mundo de Estados-Nação é impraticável, e potencialmente uma base para crueldade, perseguição, genocídio e limpesa étnica.

Ademais, o ideal nacionalista do Estado como a encarnação de uma única nação é irrelevante para exemplificar a natureza do Estado, que tentarei demonstrar no próximo capítulo.

Expediente

Editor – Carlos Góes

Redação – Carlos Góes, Filipe Sales, Rodrigo Mariano e Fernando Henrique Cardozo.



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