Hipocrisias, amadorismos e messianismos

01Abr08

GOLDSTEIN, Carlos. Hipocrisias, amadorismos e messianismos. Tribuna Popular. Ano IV, número 173. 27/01/2006.

HIPOCRISIAS, AMADORISMOS E MESSIANISMOS

“Serenamente, reparei que cada morto defendia sua causa e alardeava seus bons sentimentos. Ao lado, tinha todas as testemunhas de seus atos. Por exemplo, quando o cardeal de Lorena se vangloriava de ter feito aprovar algumas de suas opiniões pelo Concílio de Trento e, pelo preço de sua ortodoxia, rogava a concessão da vida eterna, apareciam subitamente em derredor dele vinte cortesãs ou damas da corte, todas elas trazendo gravado na testa o número de entrevistas amorosas que tinham tido com o cardeal”. – Voltaire, Dictionnaire Philosophique.

Nas últimas semanas a Lusofonia anda extremamente conturbada. Um dos sintomas desta agitação é o fato de que a lista da ImpresaLivre, ainda em meados de Janeiro, já atingiu o recorde mensagístico dos últimos 12 meses. Isto está diretamente relacionado com os recentes eventos envolvendo a Chancelaria Reuniã e o bloco liderado pelo Reino Unido de Portugal e Algarves.

O que mais impressiona em toda esta matéria é a atuação hipócrita, amadora e, quiçá, pretensamente messiânica de um sem-número de personalidades micronacionais. Os eventos têm caminhado para desaguarem em um conflito tão extenso que supera os próprios fatos; que, após um tempo, nem os próprios beligerantes sabem o porquê das intrigas.

Por uma parte, um feriu uma “moral universal micronacional” que fora estabelecida ainda nos tempos de Aguiar e ainda hoje se faz presente na Lusofonia. Por outra, alguns agem como os fariseus bíblicos, vangloriando-se de suas virtudes e de sua respeitabilidade a supostas regras de boa convivência intermicronacionais. Seguindo o exemplo do Cristo, deveríamos – toda a Lusofonia – esbravejar: hipócritas!, raça de víboras!, sepulcros caiados!

Aqueles que se colocam quase como que detentores da burra Boraque de Maomé aproximam-se da Grã-Bretanha e França – Estados então decadentes que se achavam grandes – em suas condutas na Sociedade das Nações (SDN). Seus plenipotenciários não exitavam em ir ao floor da Assembléia Geral fazer discursos humanistas enquanto o neocolonialismo pulsava nos confins do continente Euro-afro-asiático.

A construção da SDN esqueceu-se, ainda, que as elaborações legais e institucionais internacionais têm de corresponder aos fatos. Um legalismo exagerado quase leva a Europa do Sul e Insular à guerra contra a União Soviética em pleno Novembro de 1939. Seria cenário plausível a idéia de que a consolidação de uma aliança nazi-soviética, pelo conflito da URSS com as potências européias, seria quase imbatível e, nesse sentido, o mundo atual seria totalmente diferente.

Do mesmo modo, os “fariseus micronacionais” querem atribuir uma lei moral que é inaplicável à realidade do micronacionalismo. É notável que o “aliciamento” é praticado por cidadãos de todas as micronações – o que não implica que o seja por todos os cidadãos. Este “jugo desigual” pode trazer sérias conseqüências à prática do micronacionalismo.

Ademais, para a pintura da realidade, devemos somar a estes fatos um verniz de amadorismo recorrente. Amadorismo, principalmente, ao deixar que ressentimentos individuais e orgulhos feridos excedam os próprios interesses (micro)nacionais, fazendo do sistema intermicronacional, reino da razão por excelência, governado pelas paixões. Amadorismo, por não entenderem que ao apontar a lança não se enfraquece, mas fortalece-se o oponente.

Foi assim com a Rússia czarista de Nicolau II quando da erupção da Grande Guerra, está sendo assim com Reunião. A adversidade agrega os concidadãos em prol de uma só causa. Isto vai de encontro com a máxima estratégico-militar do “dividir para conquistar”.

Desenha-se hoje uma “corrida armamentista” lusófona, implicando em uma matriz de soma zero. Não obstante, em face à potência índica, duvido da capacidade dos europeus em sustentar esta corrida. Hão de notar que a cooperação é a possibilidade de uma autosuperação com ganhos mútuos da Lusofonia como sistema e não de um Estado em específico. O conflito, embora ocasione euforia inicial, os levará à ruína, não por Vontade Divina, mas por conseqüência dos fatos.

Sugiro que façam esta pergunta: cooperar com ganhos ou pelejar com perdas? A resposta não cabe a mim. Espero eu não ter de falar: “Pai, perdoai-vos, eles não sabem o que fazem”.



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