A águia e a mosca

01Abr08

Tribuna Popular. Ano IV, número 171. 08/01/2006. (PARTE 1)
Tribuna Popular. Ano IV, número 173. 27/01/2006. (PARTE 2)

A ÁGUIA E A MOSCA.
Bruno Cava

A Mosca era feliz. Rodopiava e zunzunava por todo o vale e tudo lhe parecia leve e gracejante. Vivia assim nessa estultície, dançando sonsa, zumbindo e se alimentando dos restos que os outros animais porventura deixavam para trás. Não lhe interessava saber para que servia e nem de onde vinha. Para a Mosca, bastava fazer o que lhe era natural, mosquear, ou como se diz, andar às moscas.

Certo dia, porém, quando pairava despreocupada, uma sombra veloz e possante cruzou por cima dela, tão violenta que a forçou a imediatamente pousar sobre um graveto, engelhando o coração. O animal potente riscava o céu sobre as copas das árvores, seguro, firme e certeiro. Trocista, subia à alturas vertiginosas apenas para despencar em ângulo reto, quase se esbofetando contra o chão. No último instante, desviava do choque e punha-se novamente a ganhar altura. A cada mergulho altaneiro, emitia um som metálico similar ao da bigorna. Ostentava afiadas garras, longas asas e uma plumagem exuberante. Decerto um animal potente e vigoroso e ao mesmo tempo terrível. Jamais a Mosca vira semelhante mistura de beleza e horror, tamanha vivacidade. Tão súbito quanto aparecera, o bólido decidiu voar horizontalmente e desapareceu do campo de visão.

Por coincidência, um Mico passava no local no mesmo momento e presenciou a cena. Notando o assombro da Mosca, paralisada, disse-lhe: ‘Mosca, não vais me contar que nunca tinhas visto a Águia!? Pois saiba que a Águia é a soberana do vale. É o animal mais forte, destro e sagaz, que a todos atormenta e mata e devora, mas que a nenhum teme. Voa pujantemente por sobre as paragens da várzea incutindo medo nos passantes’.

A Mosca maravilhou-se com a nova descoberta. Sentiu um fascínio tão intenso que quis ser como ela. Então falou ao Mico: ‘Agora que presenciei o vôo da Águia, que nem em sonhos podia conceber, não posso mais me conter, não encontro mais paz de espírito… ora, eu também quero ser como a Águia!’ Dito isto, o Mico zombou: ‘Quer ser como a Águia? A Águia?! Mosca, enxerga-te, criatura infeliz! Tenho dó do teu infortúnio!’ Não esperando a invectiva, a Mosca aproximou-se da poça d´água. Pôde assim olhar o próprio reflexo: ‘Que natureza ingrata, oh, destino cruel, coincidência da vida que me fez tão desprovida de dotes ou qualidades, quão desditosa é minha existência; agora que conheci a Águia, percebo como sou desproporcionada e repugnante! Todavia! Todavia, ainda hei de me tornar como a Águia!’

Resolveu então dirigir mais um questionamento ao Mico: ‘Meu amigo brincalhão, podes me revelar onde mora a Águia, onde posso encontrá-la para uma conversa?’ ‘Sim!’, respondeu o Mico: ‘O ninho da Águia fica no pico da montanha mais alta, que circunda nossa região… lá do alto ela assiste à movimentação do seu reino e decide quem será despedaçado por suas garras e devorado, para aplacar a fome ou por capricho da ferocidade… mas eu não iria lá, se fosse tu.’

Mas a Mosca não quis ouvir mais nada. Tinha a cabeça feita e zuniu em direção à montanha mais elevada. Chegando ao sopé do monte, pôs-se lentamente, em ritmo de mosca, a voar a longa distância que a separava do topo. Quanto mais subia, aos bocadinhos, de maior frio sofria, ao mesmo tempo em que o vento se tornava mais e mais cruel. Encontrou dificuldade para equilibrar o próprio vôo, mas ainda assim perseverou na missão. E pensou que, de fato, a Águia deveria ser um animal muito resistente e rijo para suportar diariamente tão fortes e gélidos ventos, típicos das grandes alturas.

Com grande dificuldade atingiu, enfim, o cume. Como o Mico havia contado, ali se encarrapitava a singular e solitária Águia. Postava-se na posição de sentido, espartanamente, asas bem fechadas ao redor do corpo, indiferente à ventania que a açulava. Somente algumas penas sobre a cabeça imponente esvoaçavam. Como um ídolo de aço, em imobilidade absoluta, a Águia fitava objetos tão distantes, tão fora do alcance da visão da Mosca, que parecia admirar o infinito…

‘Poderosa Águia! Vim ter contigo!’ – bradou a mosca tentando vencer o uivo da ventania. Embora tenha ouvido, a Águia não esboçou reação, nem mesmo desviou a vista, que seguia apontada ao horizonte longíquo. Não satisfeita, a Mosca vôou trôpega – o vento era inclemente – para o outro lado e falou ao pé dos ouvidos aquilinos: ‘Águia!, enfrentei os perigos da montanha e aqui estou, clamando por tua atenção! Quero ser como tu! Ensina-me a ser Águia, ó impávida!’ Mas ela permaneceu petrificada. ‘Poderosa Águia, por que não falas comigo? Seriam pretensões desmedidas querer ser tua amiga ou tua escudeira ou tua serva?’ E nada, nem o mais ligeiro movimento.

Não suportou mais o vento e estremeceu, perdendo o controle do vôo. Arremessada sobre uma pedra próxima, chocou-se com um som oco e desfaleceu sem energias. Horas mais tarde, quando voltou a si, a Águia não estava mais. Intranqüila, humilhada, a Mosca praguejou com veemência antes de iniciar a laboriosa descida para o vale. Errou durante um tempo indefinido, alternando lamúrias com blasfêmias, sem formular pensamentos coerentes. Algo havia se quebrado na Mosca jovial e estulta de outrora, provara do sabor ocre do ressentimento. Até que encontrou outra poça d´água e observou novamente a imagem turva que se formava.

Sentiu uma vontade irresistível de se matar. Ao se deparar mais uma vez com o despiciendo reflexo, arremessou-se contra ele como se estivesse investindo contra o assassino de sua mãe – só que o inimigo, desta vez, era si própria. Desmaiou enquanto afundava.

Despertou com o barulho da risada escarnecida do Mico. ‘Tu és mesmo um moscão, infeliz! Assisti daqui do galho: a poça secou e falhaste até em sacar a própria vida!’ Gargalhava de rolar no chão e dar cambalhotas: ‘Tua existência efêmera e abjeta só pode ser uma excrescência da natureza!’, emendou o Mico. Nesse instante, a bílis negra revolveu-se e ebuliu em vapores e gorgolejos nas entranhas da Mosca, que ansiavam para a extravasão. A Mosca crispou-se em espasmo e a descarga veio lancinante: ‘Maldita seja a Águia! Odeio-te mil vezes! Águia, tu és vil, és torpe, és… és MÁ!!’

O Mico condoeu-se e conteve a troça: ‘Mosca, saiba que não és a única que detesta a Águia. Todas as noites reúnem-se vários animais que confabulam planos clandestinos para vilipendiar a dominação da Águia.’ Um leve brilho nos olhos apareceu então pela primeira vez na Mosca. Foi como se um lampejo distante trouxesse a esperança a um andarilho perdido numa noite escura: ‘Mico, caro amigo, conta-me mais e diga-me onde encontro tal reunião secreta!’ E o Mico contou.

Na noite indicada, a Mosca dirigiu-se ao canto mais escuro e pútrido do pântano. Lá encontrou o rumorejar dos animais ínferos e aos poucos pôde distingui-los nas sombras: a Cobra, a Lacraia, o Pombo, a Minhoca, a Barata e a Ratazana. Esta última presidia o grupo e deu as boas vindas a seu mais novo membro: ‘Mosca, nesta organização não há suserano ou vassalos, somos essencialmente iguais, tratamo-nos todos por irmãos e decidimos pela maioria – um voto para cada membro.’

Um após o outro, os bichos asquerosos chiavam, sussurravam e resmungavam contra a arrogância e a prepotência da Águia. Chamavam-na de assassina, torpe, tirana, desrespeitadora da justiça. Concluíam que não tinha direito de dominar e oprimir os demais animais, que exercia o poder despoticamente e que deveria prestar contas de seus atos violentos. A Mosca vinha concordando com todas as posições, porém em determinado ponto pediu a palavra para acrescentar: ‘Meus irmãos, o que dizem é muito certo e justo, mas me preocupo também sobre como podemos agir, na prática, contra a Águia, como podemos pôr fim a sua tirania!’

Fez-se então silêncio. Os membros entreolharam-se constrangidos – uma pergunta sem resposta pendia no ar. Atacar diretamente a Águia certamente seria suicídio. Nem mesmo um exército de baratas e moscas poderia sequer ferir tão pujante animal. Além disso, a mera menção de uma ação concreta contra a Soberana fazia tremer as cartilagens dos presentes. Jamais teriam coragem de arriscar assim a própria pele. Quem pôs fim ao silêncio foi a Barata, que alegando indisposição, queria partir mais cedo, mas a Lacraia não permitiu.

Foi quando a Ratazana teve a idéia: ‘Mosca, tenho uma resposta a teu questionamento! Já dizia o provérbio que a pena é mais forte que a espada, pois então vamos escrever uma Carta de Repúdio – mas não qualquer manifesto – será um documento peremptório e decisivo, um que provará, além de qualquer dúvida, mediante os meios justos e legais, a falta de ética, as ofensas e a imoralidade da Águia… Ela ver-se-á obrigada a se dobrar à justiça e à verdade dessas palavras e doravante se integrará ao convívio saudável, honesto e harmônico conosco, que afinal gozamos dos mesmos direitos que ela! Ou o agressor pára de vez com sua conduta agressiva ou deverá ser exclusa do convívio dos demais! E a ti, Mosca, por ser tão pequena que está a salvo da fome homicida da Águia, incumbirá ler o Manifesto perante a própria responsável por todo o Mal que assola o vale!’ A proposta foi aprovada por unanimidade e o manifesto escrito e assinado a sete mãos, finalizando o encontro daquele dia.

A Mosca carregava a epístola com ar triunfante. Finalmente, alguém daria uma lição de moral na Águia e, quem diria, a gloriosa missão caberia justo a ela, a Mosca, que há pouco tempo não poderia se conceber desafiando altivamente a jupiteriana tirana do vale. Zunzunando faceira, recordava-se da confiança e da expectativa que a Ratazana e os demais membros da organização clandestina lhe depositavam. Vez por vez, apertava o papel timbrado e seu entusiasmo engordava. Acalentou algo que nunca tivera antes: uma missão, um sentido na vida! Ah, mas a Águia pagaria caro pelas vilanias.

No caminho para a montanha mais alta, passou por sobre o lago e pôde, uma vez mais, contemplar o próprio reflexo. Desta vez, porém, não se prostrou como da outra; não se quedou amargurada com a desídia com que o destino a havia tratado. Ao invés, pensou consigo: ‘posso ser repulsiva, asquerosa e sem força alguma, mas isto não importa… o que realmente vale é que sou… sou uma alma boa’! E prosseguiu sorrindo para si: ‘Meu corpo pode ser repugnante, porém que isso interessa?!, a beleza da alma é deveras superior! Posso ser incapaz de levantar uma pluma, contudo não tenho pensamentos maus; sou caridosa e agradável para com todos, sou de bem! Isto me basta, não quero nada além!’

Foi quando o Mico se revelou irrompendo das folhagens. ‘Ei, desventurada criatura, o que é isto que carregas nas patas?’ ‘Meu amigo símio, muito bom dia!’ – respondeu-lhe a Mosca – ‘peço perdão por não poder travar mais um proveitoso colóquio; é que estou incumbida de grave e inadiável missão…’ O Mico franziu o cenho: ‘Missão?! De que estás falando, inseto dos insetos?!’ O orgulho parou a Mosca: ‘Pois tome ciência que doravante represento a Ratazana, a Lacraia, a Minhoca, o Pombo, a Barata e a Cobra; fui designada Arauta da Organização; e fique sabendo que vou enfrentar a Águia!’ – antes de terminar a frase, o Mico já descambava a gargalhar. Desmoronou do galho, de tanto rir: ‘Estúpida!, tu te sacrificarás a toa! Por uma camarilha de inúteis! E ninguém irá no teu enterro!’

Contrariada, a Mosca seguiu viagem. Alguma coisa naquele Mico fazia-lhe ferver as entranhas. ‘Animal insolente, um dia… um dia ele também pagará por seus pecados’. ‘Pois’ – lembrou-se da pregação da noite anterior – ‘tudo que está abaixo do céu é governado numa harmonia oculta e perfeita, em que nada se faz sem que seja pesado, nada acontece por acaso, na verdade, o mundo se alinha conforme uma ordem justa e universal’ Elocubrou ainda que se nascia Mosca, era naturalmente porque um desígnio maior assim desejava, decerto haveria para ela também os pícaros da grandeza e do sucesso…

A subida ao pico mais alto mostrou-se novamente espinhosa. Quanto mais se elevava nas escarpas, mais tremia e rangia de frio e também de medo. Aplacava-o se convencendo mais uma vez da eminência de sua tarefa. Foi quando o tempo cerrou e o vento gélido deu lugar à neve fina e açulante. Mas a Mosca foi perseverante: ‘Ela há de se dobrar ante à mensagem que porto!’

Viu então a majestosa espécime… Parecia adormecida. Olhos bem fechados, asas ao derredor do corpo musculoso – como que o abrigando – a Águia postava-se no cume… soberana, como da primeira vez que a Mosca a admirara. O contraste da ave-de-rapina com o fundo de nuvens plúmbeas e em movimento fazia da cena um espetáculo espantoso.

‘Infame Águia, acorda! Venho em nome dos habitantes do vale, que são do bem, para dirigir-lhe terrível admoestação! Teus dias de perversidade e assassínio não serão mais admitidos pela sociedade civilizada! Tu não sabes o que fazes! Não sabes que desrespeitas a harmonia e a paz do Vale e que por tua causa a guerra tem imperado em todos os níveis! Mas eu venho em nome do Bem, da Justiça e da Moral para demover-te de teus propósitos opróbios! Escuta-me de uma vez para sempre! Águia…’

A Mosca pretendia continuar o exórdio por muito tempo ainda, antes de iniciar a leitura da Carta de Repúdio propriamente dita. Entretanto, neste exato instante, fendeu entre as nuvens negras uma lacuna, através da qual o Sol se apresentou novamente, lançando um raio de luz exatamente sobre o promontório da Águia. Iluminou-a de supresa e ela sentiu o calor solar sobre as penas orvalhadas.

E aí, num lance inesperado, o manancial de vida e de instinto pulsou no âmago da Águia e dela extravasou. Abriu os olhos e estendeu as poderosas asas até a máxima envergadura. Num só golpe, ofereceu toda exuberância e primor de seu corpo espartano de aço. Pulmões possantes faziam inflar a compleição do animal mais forte, mais perfeito – ápice da cadeia alimentar, ponto culminante de inúmeras tentativas e erros do destino, até que numa brilhante inspiração pôde nascer tão vistoso e único animal.

Naquele momento sublime, a Águia hauria para dentro de si toda a diversidade e todo o movimento que se agitavam abaixo dela; sorvia com tal volúpia o néctar dourado da vida – em êxtase que fazia os olhos aquilinos vacilarem sôfregos. A Águia se amalgamava uma só com o vale e os animais; ela estava neles e eles nela. Ela era o próprio Sol, a derramar energia vital e força ao mundo orgânico.

A Mosca imediatamente perdeu a voz e interrompeu o discurso. Perdeu o norte e estolou, deixando que o vento levasse para longe o manifesto que trazia com tanto cuidado. Ficou assim vagando, ao sabor das intempéries, por muitas horas a fio. Embora acordada, era como se nada mais fizesse sentido, nada mais tivesse qualquer valor diante daquela epifania terrível. Fora fulminada por uma beleza que não podia suportar e nem mesmo conceber…

No dia seguinte, a Mosca voltou a si, mas a memória estava embaralhada. Recordava-se vagamente dos acontecimentos do dia anterior, porém não conseguia vislumbrar um nexo causal entre eles. O que tinha auscultado com tamanho horror? Inexprimível! Só podia ser um Anjo! Porém um anjo mau – que mesclava a formosidade do corpo com a malignidade do pensamento; criatura velhaca, decaída, que se travestia do belo para fazer o mal. Recompôs as próprias forças e pôs-se em marcha para relatar aos seus mandantes, que ansiosamente aguardavam notícias da missão.

Lá chegando, na zona mais pestilenta do pântano, notou que já estavam a sua espera. A notícia do encontro entre a Águia e a Mosca havia se espalhado pela várzea. Ansiosa, a Ratazana passou a palavra ao pequeno inseto, que anunciou fazer estrepitosa revelação. Entreolharam-se os bichos asquerosos, impacientes: ‘Diga logo, venerável Mosca, o que descobriste em teu sinistro encontro com a opressora?’

Então a Mosca falou, arrepiada: ‘Irmãos, a notícia que lhes trago é assustadora e terrível… a Águia, na verdade, ela é…não sei como dizer isso, mas… ela é o DIABO!’



One Response to “A águia e a mosca”

  1. 1 Pedro António

    …até que chegou o MOSCALHÃO que pegou no seu canhão e enfiou um par de balazios na Aguia que caiu a pique e espetou com o bico no chão…e lá voltou a mosca de novo a mosquear como é normal…


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