O mito da criação da lusofonia

01Abr08

Tribuna Popular. Ano IV, número 173. 27/01/2006.

O MITO DA CRIAÇÃO DA LUSOFONIA.
Bruno Cava

Conta a mitologia grega que certo dia Zeus foi acometido de tenebrosa enxaqueca, mas tão gravosa que o mais poderoso dos deuses entrou em desespero e pôs-se a bater a cabeça contra as paredes. Numa cabeçada particularmente forte, seu crânio rachou e súbito, para surpresa geral, de dentro dele irrompeu uma deusa armada por inteiro e executando a característica dança bélica helênica. Noutra versão, Zeus é golpeado pelo machado de Hefesto, produzindo o mesmo resultado: o nascimento da deusa da inteligência e da estratégia, Atena (Minerva para os romanos). Deusa sem mãe e por isso queridíssima pelo augusto progenitor.

Atualmente, vigora mito similar nestas bandas, o de que a Lusofonia teria surgido abrupta e armada da cabeça de Aguiar, como Minerva do crânio de Júpiter. Numa autêntica religião, crê-se – ou pelo menos divulga-se – que, numa inspiração divina, Aguiar teria criado a Lusofonia ex nihilo. Ele seria uma espécie de grande patriarca – de pai primordial deste eixo histórico-cultural de convivência de micronações e micronacionalistas.

Ocorre que, malgrado a persistente campanha de desinformação, o micronacionalismo lusófono não apareceu do nada, muito pelo contrário: inseriu-se em um micronacionalismo que o precedia não apenas cronologicamente, mas também em termos de práticas, valores e conceitos vigentes. Quando Aguiar inaugurou o então “país de imaginação” na Internet – primeiro passo que deu para fosse alçado à categoria de micronação – imediatamente tomou contato com outros experimentos, com os quais passou a interagir, abeberando-se de projetos relativamente bem sucedidos, como o paradigmático Reino de Talossa, online desde 1995.

Além disso, a diferença temporal entre Porto Claro e Reunião, à época, é insignificante, especialmente levando em consideração a esterilidade e a lentidão com que se davam os acontecimentos nessa era remota. O fio da história era vago, quiçá oco. Mesmo porque o Sacro Império, in origine, não pode ser considerado micronação derivada de Porto Claro ou essencialmente apoiada nas idéias de Aguiar que, inclusive, não eram exclusivas ou 100% originárias dele – mas uma micronação plasmada por anglófonos.

Na verdade, a inter-relação entre Porto Claro e Reunião, desde idos de 97, que somente se foi tão fecunda e intensa que devemos corrigir os desinformados: Cláudio se inspirou em Aguiar ou Reunião em Porto Claro – o que dá na mesma – na medida em que este igualmente respirou daquele espírito micronacional, e desde que se reconheça que ambos inalaram o clima geral de micronacionalismo desses primórdios na Internet, cujas cepas por sinal os antecediam, em inglês e francês.

Ainda, há que se afastar de uma vez por todas o mitologema de que a Lusofonia irrompeu como por encanto da cachola de Aguiar. Fiat lux: e fez-se a “Lusofonia”! Claro que não. Deve-se compreender que não há Lusofonia sem que um peculiar eixo de convivência se dote de consistência, historicamente desenvolvido, caracterizado por práticas, espaços, concepções e discursos em comum. Lusofonia, propriamente falando, é um paradigma e como tal demandou tempo e substância cultural para ganhar forma e se consolidar.

É difícil apontar com exatidão o princípio da Lusofonia, como, diga-se de passagem, é-o para datar a aparição de qualquer novo grupo cultural. Todavia, o ano de 98 apresenta múltiplas positividades que permitem conjecturar que, algum momento por ali, possivelmente no segundo semestre, o paradigma da Lusofonia – também conhecido por reunião-portoclarense – encorpou-se a ponto de ser possível identificar-lhe as fronteiras (e daí se definindo). Entre as positividades, vale destacar a sedimentação das listas de mensagens – inclusive as distribuidoras intermicronacionais – o Prêmio Aruaque, a tentativa da OLAM, os portais de informação e interação, o turismo e o espraiar-se de novas micronações baseadas nas duas grandes pioneiras, bem como diversas práticas comuns de fazer micronacionalismo que o historiador competente poderá desvelar facilmente mediante as fontes disponíveis.

Graças à unidade histórica e cultural – cada vez mais fomentada pela clausura da língua portuguesa – Reunião e Porto Claro encabeçaram um novo grupo cultural que viria a ser conhecido por Lusofonia. Somente o alienado, que se fecha na casca de noz, não pode perceber o terreno comum sobre o qual erguem-se as micronações lusófonas. Contudo, é imperioso para o micropatriólogo não esquecer que nem sempre foi assim: o micronacionalismo lusófono é emanação do micronacionalismo mundial, com influxos anglófonos (especialmente talossanos) e ocasionais contaminações por outros paradigmas ao longo de sua história coesa de 8 anos.

Não por acaso o micronacionalismo pasárgado causou perplexidade nos seus primeiros passos – antes de vicejar e difundir-se e incorporado por outros projetos. Houve até quem dissesse que não se fazia ali micronacionalismo. É porque logo após a fundação, Pasárgada fundamentou-se de elementos de outros paradigmas, modificando pressupostos que muitos sequer percebiam – por estarem imersos nele (assim age o paradigma). Há que se falar mais do impacto pasárgado na Lusofonia em outra oportunidade…

Do breve ensaio, sobrelevam as conclusões, já arrazoadas noutras vezes:

1ª – Aguiar não criou a Lusofonia do nada, porém se inscreveu em um meio micronacional precedente, dele ingurgitando peças para amoldar e informar a micronação pioneira: Porto Claro – sem embargo se trate de micronacionalista com o pathos micronacional, patológico, tendo criado valores e práticas que vingaram; não há aqui intenção de desmerecimento, porém de esclarecimento factual.

2ª – Tanto Aguiar, quanto Cláudio, foram igualmente relevantes para a formação da Lusofonia, o que somente ocorreria em meados de 98. Antes disso, havia uma Lusofonia in statu nascendi – primordial e incipiente – sem práticas sedimentadas, na base da tentativa e erro e sem eixo de convivência próprio. Se há paternidade de um paradigma – o que é discutível – ele cabe predominantemente a Cláudio e Aguiar.

3ª – Esclarecidos os pontos acima, a crença de que em um momento mágico deu-se partida à Lusofonia devido à cabeça de Aguiar trata-se de perspícuo e manifesto mito, que tem sido cultivado e promovido por múltiplas causas: ingenuidade, desinformação, preguiça (de pesquisar) ou simplesmente conveniência. Há que se recordar que a fé numa lenda muitas vezes é sincera – mesmo que patentemente falsa – porque nos torna melhores do que realmente somos ou porque precisamos encontrar uma origem imaculada e especial para a nossa existência.



No Responses Yet to “O mito da criação da lusofonia”

  1. Deixe um Comentário

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: