Do processo normal dos nacionalismos

03Abr08

O Socioculturalista #2 – 09 de abril de 2007.

Carlos Góes

Como surgem nações? É por causa de uma língua comum? Se só por isso o fosse toda a America Hispânica seria um só país e a Indonésia seria um fragmento de diversos. É por causa da geografia? Então os russos nascidos em Kalingrado [veja aqui na wikipedia] são menos russos que os russos de Moscou?

Nacionalidade, antes de mais nada é um processo de indentificação, que é natural de todos os seres humanos. Hoje os adolescentes logo querem dizer se são “funkeiros”, “rockeiros”, “emos” e recusam totalmente a identificação com as outras “tribos”. Hoje, o mais natural processo de identificação é a nação. Pensamos: eu tenho a pele branca, sou protestante, são-paulino e heterossexual, enquanto ele tem a pele negra, é umbandista, corinthiano e é homossexual. Somos todos, contudo, brasileiros.

No mundo ocidental, até meados do Século XVI, o principal eixo de identificação era o religioso: se era católico, protestante, judeu ou muçulmano. Posteriormente, passou a ser as grandes dinastias europeias: se era súdito do Rei Carlos I ou do Rei Luís XVI – não se tinha idéa de se ser inglês, francês ou português. Somente a partir do fim do Século XVIII, surgiria a idéia de nação. A recusa dos colonizadores em identificar os crioulos – filhos de colonos nascidos nas Américas – acabou por gerar a identidade mútua dos nacionais. Nos EUA, um crioulo nacionalista pensava: “se eles são os colonos exploradores, nós, os explorados, somos os americanos”.

O propósito do nacionalista é cultivar a consciência nacional, a consciência de indentificação mútua. E o nacionalista se utiliza dos símbolos gerados da interação social em sua batalha. A partir da idéia de nação, foi gerada a bandeira, o brasão nacional, o hino. E isto surge pode surgir ou do processo natural das relações sociais – os chamados nacionalismos populares – ou então de uma estrutura estatal – o nacionalismo oficial.

Ambas as formas podem surgir no ambiente micronacional. Pasárgada e Mariana são bons exemplos de nacionalismo popular, enquanto Reunião, Porto Claro e outros modelos muito centrados na figura de uma única pessoa são exemplos de um nacionalismo oficial. O que importa aqui não é qual é o melhor modelo, uma vez que ambos podem ser aplicados à realidade das comunicações virtuais nas quais se susteta o micronacionalismo contemporâneo.

É mister compreender, entretanto, é que o objetivo fundamental do [micro-]nacionalismo é um só em ambos os modelos: o da expansão da consciência nacional. Em nosso ambiente virtual reproduzimos o nacionalismo em escala reduzida e, exatamente por isso, o objetivo do micronacionalismo não é o mesmo que um jogo de poker ou andar de bicicleta. O objetivo não pode ser só diversão. Se o for, não podemos chamá-lo de [micro-]nacionalismo, teremos de rebatizá-lo.

Somente tendo em mente o objetivo do micronacionalismo poderemos dar o salto qualitativo que desejamos. Somente assim restabeleceremos o processo normal dos nacionalismos. Ou se dá ex partis principis com uma pessoa centralizando as decisões e tendo como objetivo fundar uma nação. Ou se dá ex partis populis, com uma micronação nascendo de outra. Ambas têm de resguardar, entretanto, o objetivo de expansão da consciência natural, valorizando as relações sociais e os símbolos culturais.

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