As duas revoluções

21Jan09
O Socioculturalista #8, 25 de maio de 2007.

AS DUAS REVOLUÇÕES – Carlos Góes.

O micronacionalismo contemporâneo necessita de duas revoluções: uma teleológica e outra tecnológica.
A primeira, passa pela construção de um verdadeiro nacionalismo popular – ex partis populis – que, por meio da lenta lapidação de uma cultura comum –  com doutrinas, normas de procedimento, artefatos, símbolos, métodos e costumes -, gere os laços imaginários de identidade nacional que faltam para dar razão ao fragmento -nacionalismo do [micro-]nacionalismo. Este é processo extremamente complexo, pois a construção de vínculos nacionais interpessoais leva algum tempo e, ademais, o aspecto voluntarista do nacionalismo em miniatura contribui para tornar estes laços mais fracos.
Quais são os modos de fazer isto? Governos não produzem cultura. Podem, ao máximo promover uma homogeneização cultural (v. GUIBERNAU, MONSERRAT, Nacionalismos.). É exemplo disso a escolha do Império Austro-Húngaro pela germanização em detrimento do seu multiculturalismo germânico-magiar.
Esta homogeneização é exemplo de nacionalismo oficial, e não popular. O “benchmark” que temos de nacionalismo oficial em escala reduzida é Reunião. Nela, Cláudio de Castro, utilizando-se das tradições de 10 anos de micronacionalismo define o que é o “way of life” reunião e o que está fora dele. Esta lógica foi aplicada por diversos governos na história, em especial nos absolutos/ditatoriais (vide Sião e Estados da Indochina), mas também nos democráticos (vide o massacre dos nativos da América do Norte pelos Estados Unidos) – desde que, nestes últimos, haja significativa distância entre o grupo dominante e a massa popular. 

O nacionalismo popular, entretanto, é de muito mais difícil realização – em especial no modo em que se dá o micronacionalismo atual. Para que este aconteça é necessário que a própria sociedade alimente o espírito de pertencimento e identidade nacionais, para que o vínculo de nacionalidade seja muito mais que uma escolha ordinária entre camisetas amarelas ou vermelhas, se tornando algo profundo – cujo rompimento não seja simples. Das relações sociais entre os indivíduos emergirá a idéia de nação e, naturalmente, a força do vínculo nacional será diretamente proporcional ao direcionamento das relações sociais ao reforço do sentimento nacional.

Afora isso, para que os micronacionalistas consigam compreender melhor as relações sociais, são necessárias novas ferramentas de comunicação. Muito embora a comunicação escrita tradicional do micronacionalismo transmita relações sociais, é fato que estas não se limitam a isso. As cores, imagens, cheiros, sons, movimentos e emoções formam aspectos intangíveis das relações sociais. Em outra palavras, é muito mais fácil perceber alguém você conversa por vídeo-conferência como um indivíduo real que tem relações sociais com você do que um remetente de e-mails que você não conhece.
Esta é a segunda revolução necessária: a tecnológica. Ela vive em função da primeira, tendo como objetivo reforçar a interpretação teleológica do projeto micronacional como sendo um projeto real de nação. As novas tecnologias ora disponíveis para utilização online têm como um ponto: a interatividade. E é na interação que reside o ponto nevrálgico das relações sociais. Sem aquela estas não podem existir.
Redes de relacionamento, wikis, vídeos, podcasts/blogs, fotos, áudio e vídeo-conferências. O desafio é conseguir agrupar todos estes elementos em um único recinto e trazer racionalidade em seus usos para o micronacionalismo. Tendo estes elementos como foco, deslocaremos o eixo da interação micronacional da emulação às relações político-sociais.
No lugar de palácios imaginários, fotos de nosso dia-a-dia pessoal. Ao invés de dizer “o que Hitler fez não importa no micronacionalismo”, o aproveitamento de toda a nossa carga intelectual e emocional em nossa prática micronacional. Podem pensar: ora, mas as pessoas terão “medo” de fazê-lo, de se expor. Ora, mas as mesmas já não o fazem hoje? Orkut, Flickr, Blogger, Skype, YouTube estão aí para nos provar isso. A tal “web 2.0”. Se as micronações passarem a se apresentar desta forma desde sua gênee, os novatos não terão problema em se adaptar – pois não estarão submersos nos velhos dogmas que habitam a Lusofonia.


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