Concepções de nacionalismo

21Jan09
O Socioculturalista #13, 5 de abril de 2008.
CONCEPÇÕES DE NACIONALISMO – Carlos Góes

Pierre Renouvin e Jean-Baptiste Duroselle, em sua mais importante obra conjunta – Introduction à l’histoire des Relations Internationales -, afirmam existir duas grandes abordagens analíticas do nacionalismo. Abordagens, ressalte-se, divergentes.

A primeira seria a concepção naturalista do nacionalismo. Segundo esta concepção a nação seria um ser vivo, um ente natural, independente das relações sociais existentes entre os membros da mesma. A nação estaria evidente na língua, na raça, no território, na fidelidade, nos costumes, nas antigas tradições. A nação seria a “ação inconsciente de uma força superior”. A qualificação de um grupo social como nação não seria relacionado à existência de um sentimento nacional, mas sim aos elementos como os supracitados. “Que tais agrupamentos não tenham consciência de sua solidariedade, que não manifestem o desejo de viver em comum, pouco importa: os sinais exteriores constituem critério indiscutível”.

Seriam exemplos o fato de germânicos terem se agrupado em um nacionalismo alemão (ou germânico); antigos gauleses terem se tornado os contemporâneos franceses; e os habitantes da península itálica terem, desde o Século XVI, fomentado um sentimento nacional italiano que culminaria na unificação de 1870. Não explicaria, todavia, o porquê de a hispano-américa ter se conformado em um sem-número de nações; e, por exemplo, o fato de os suíços falantes do alemão – muito similares culturalmente, linguisticamente e em termos étnicos, dos alemães – não conformarem a “nação germânica”, supostamente existente em termos naturais.

Já a concepção sociológica do nacionalismo compreende que a nação é um “fato de consciência”. A nação existe pelo fato de – agora utilizando o léxico de B. Anderson [1] – seus membros identificarem um ao outro como ligados a uma mesma entidade imaginada socialmente: a nação. “A pátria é antes de tudo a consciência da pátria”. É marcante, nesse sentido, um famoso discurso de Ernest Renan, onde o mesmo relata que:

Uma nação é portanto uma grande solidariedade, constituída pelo sentimento advindo dos sacrifício que nós fazemos e estamos dispostos a fazer no futuro. Ela pressupõe um passado resultante em um fato tangível: o consentimento, o claro e expresso desejo de continuar a conviver em sociedade. A existência da nação é, em si mesma, um plebiscito diário, assim como a própria existência do indivíduo é uma perpétua afirmação da vida [2].

De tal modo, mesmo reconhecendo a importância dos fatores tidos como fontes naturais da nação para a emergência de um sentimento nacional, eles por si só não seriam suficientes. Sem a expressão de uma identidade comum, de um sentimento de solidariedade, não pode haver nação. Isto, pois a nação seria constituída exatamente por esta identificação coletiva sendo, assim, uma comunidade imaginada.

Ao passo que a concepção naturalista entende que a nação é um fato dado, empírico, a concepção sociológica trata da questão das identidades, sendo a nação é construída sociologicamente, por meio das interações sociais. Na primeira abordagem, a existência de uma micronação seria impossível, uma vez que micronações não são natural: não se baseiam ou resumem à língua ou à etnia. Todavia, concebendo a nação como ente construído com base nas interações sociais, pode-se observar que um micronação pode ter, apesar da escala reduzida, as mesmas características de uma nação de proporções maiores.

Nesse sentido, fica exposta exatamente qual deveria ser a abordagem micronacional à questão da construção de um micro-nacionalismo: deve-se focar nos laços imaginados de identidade que emergem das interações sociais. Micronações possuem um locus social. As relações existentes, ainda que utilizando-se da Internet como meio de comunicação, são reais, nunca virtuais.

[*] citações, salvo expresso em contrário: RENOUVIN, Pierre; DUROSELLE, Jean-Baptiste. Introduction à l’histoire des Relations Internationales. Paris: Librairie Armand Colin, 1967. pp. 180 – 267.
[1] V. ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas: Reflexões sobre a origem e a expansão do Nacionalismo.



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