Fantasia e realidade no micronacionalismo (i)

24Jan09

O Socioculturalista #16 – 24 de Janeiro de 2009.

FANTASIA E REALIDADE NO MICRONACIONALISMO (I) – CARLOS GÓES

O cerne do diálogo realismo-virtualismo é a questão da fantasia e da realidade na prática micronacional. Muito se disse sobre o tema, embora não haja qualquer sistematização do pensamento. Ademais, sempre restaram lacunas para contestação alheia, que devem ser preenchidas com o evoluir do debate. 

 

Este artigo tem por objetivo a organização do contencioso relativo à realidade no micronacionalismo e o preenchimento das supracitadas lacunas. Nesse sentido, pretende-se demonstrar o relacionamento fantasia-realidade nos tipos ideais paradigmáticos realista e virtualista, bem como na classificação intermediária entre os dois paradigmas, i.e., as micronações modelistas.

 

Qualquer que seja a cosmovisão que conduza dada nação, os elementos reais e fantasiosos convivem. Mesmo nos tipos ideais construídos com base nos dois extremos paradigmáticos do micronacionalismo – realismo e virtualismo -, sempre estarão presentes os dos referidos elementos como composição do cenário micronacional.

 

A diferença fundamental reside na disposição dos dois elementos. E, ademais, de como os indivíduos – que são os agentes micronacionais – lidam com os mesmo. Por isso, os paradigmas interpretativos da realidade social micronacional se constituem em cosmovisões – ou seja, em um conjunto de idéias e conceitos que moldam a leitura da realidade: a Weltanschauung dos germânicos.

 

Tomando, como peça de análise inicial, o tipo ideal realista, observa-se que não há, como usualmente se argumenta, uma ausência de fantasia no realismo. Tal ausência de fantasia seria de fato, como alguns argumentam, a limitação das capacidades criativa e empreendedora do indivíduo.

 

Em verdade, no realismo, não há a ausência de fantasia, mas sim uma distinção clara entre os elementos reais e os elementos fantasiosos. Muitas peças de ficção micronacional partiram de realistas. Bruno Cava, um dos teóricos basilares do pasargadismo, escreveu a famosa “A Águia e a Mosca“. McMillan Hunt, que prega arduamente a inexistência de separação entre micronacionalismo e o restante da vida, é autor de “Pierre-Jesuiné, o herói sofista“.

 

Naturalmente, apesar da distinção clara, há uma interação entre a fantasia e a realidade. Por exemplo, a realidade factual do totalitarismo stalinista levou George Orwell a escrever “1984” e “A Revolução dos Bichos”. E a película “Matrix” deixou referências culturais utilizadas fora do contexto ficcional, como as famosas pílulas azul e vermelha. De modo similar, “A Águia e a Mosca” era uma metáfora para a relação entre Reunião e suas inimigas. Apesar das interações, o autor nunca reclamou existir factualmente uma mosca e uma águia falantes, de modo que a história pertencia claramente ao mundo da fantasia. 

 

Nesse sentido, o tipo ideal realista pode ser caracterizado pela separação entre realidade e fantasia existindo uma interação constante entre as duas esferas. Tal disposição se encontra representada na Figura 1.

 

fantasia

 

Em oposição, o tipo ideal virtualista significa a justaposição de realidade e fantasia. Deste modo, a fantasia é travestida de realidade. Enquanto no tipo ideal realista percebe-se claramente o que é fantasia e o que é realidade, no tipo ideal virtualista a própria realidade é fantasiosa.

 

Neste caso, o micronacionalismo é visto como um mundo hermeticamente fechado, mero simulacro. Os indivíduos são personagens distintos de seu controlador. O cenário é também fantasioso. Ocupam-se territórios que de fato não são ocupados. Sagas fantásticas são descritas como verdadeiras. Os acontecimentos narrados em jornais são frutos de elocubrações. 

 

Em uma cosmovisão virtualista, Guerras podem ser levadas a cabo somente em fantasia. A República da Molossia, por exemplo, reclama estar, ainda hoje, em guerra contra a Alemanha Oriental. Assim, a ‘realidade’ da micronação, isto é, sua atividade diuturna, é a própria fantasia. Tal situação é representada pela pela Figura 2.

fantasia1

 

 

Por fim, observa-se uma situação intermediária, que não constitui propriamente uma cosmovisão ou tipo ideal: o modelismo. Entretanto, é hegemônico no micronacionalismo em língua portuguesa. Sem maiores explicações, observa-se um cenário intermediário entre os tipos ideais realista e virtualista. Assim, não existiria uma justaposição entre realidade e fantasia, mas uma interseção entre as duas esferas. Tal situação é exposta na Figura 3.

 

fantasia3



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